Mirar-te

08-10-2014 23:53

As ruas eram vagas, o meu coração batia normalmente enquadrando os passos no cenário das ruas na noite que caia negra. Os candeeiros iluminavam os rastos matinais e as corridas da tarde, pequenas memórias sem volta que eram agora fantasmas, vultos passageiros e leves. A calma era notória, enquanto eu me aproximava em passo confuso sem saber o que fazer a seguir. Olhava o caderno, perdida em pensamentos sobre trabalho, remexendo em descuido a pulseira no pulso. Apetecia-me ouvir música, um vicio já sempre que não sabia o que fazer quanto aos próprios pensamentos. Fechava os olhos e tudo o resto se esvaia nas notas arrastadas da voz de alguém que sussurrava como era a vida. Mas o melhor? O melhor mesmo era perder-se nos tons e notas suaves de um piano. Queriasentar-me para ouvir música e poder absorver o sabor das notas e, enquanto pensava nisso, encontrei o sitio perfeito. Dois vultos. Caramba que azar! Rapidamente num passo atrapalhado dei meia volta e agarrei o caderno preto amolgado, “Porra”
- Hey, tu! Estou a falar contigo... Rapariga dos ténis azuis?
A voz provinha de um dos vultos que tinha visto, a voz de uma rapariga.
- Sim?
- Vinhas para aqui, porque deste a volta?
- Está ocupado. 
O caderno era colocado na mala de uma forma determinada enquanto, numa posição defensiva, coloquei o peso do corpo nos dois pés cruzando os braços e ergui a sobrancelha. - O que te interessa?
O vulto mexeu-se e a rapariga começou a ganhar forma, perdendo a escuridão anterior. Tinha cabelo pelos ombros, esticado, de um vermelho brilhante que contrastava com os olhos negros e o sorriso branco que havia surgido,
- Nada de facto. Não te interrompo mais.
E com isto, encostou-se ao poste da estrutura em formato de carrossel onde estava abrigada da noite, com um olhar desinteressado e o sorriso ja desaparecido do rosto.
Virei costas, estava sem paciência e apenas queria comer. Em passo rápido dirigi-me ao café mais próximo. As mesas eram o normal, nada de extraordinario. Com o meu pedido na mesa comia e pensava. So esperava poder voltar ao sitio que tinha visto os dois vultos, mas que desta vez estivesse vazio. A noite era um criança ainda pois o relógio marcava as oito da noite, dando tempo para terminar o trabalho sem muita complicação. Mas a rapariga de cabelo vermelho não saia do pensamento, a sua voz era suave e arrastada, quase semelhante às notas de piano. Melodia essa que não poderia deixar de ser apreciada, até mesmo por alguém tão alheio ao mundo exterior como eu. Eu apreciava a suave brisa com o anunciar de chuva comendo a merenda quando começou a chover  e ironicamente o único local onde me podia abrigar era o pequeno carrossel. "Merda" Com uma breve corrida abrigou-me e larguei a mala no banco mais próximo, tentando em vão sacudir as gotas de chuva que escorriam pelo cabelo. O meu corpo escaldava pelo contacto com o frio exterior.
-Posso ajudar-te? 
A rapariga surgira também a correr, protegendo-se da chuva quase chocando comigo que me sentara no primeiro banco junto da entrada do abrigo. A sua voz nada tinha agora a ver com notas de piano, mas mais um saxofone desafinado devido ao esforço, mas mesmo assim, a rapariga era bonita o suficiente para captar a atenção dos meus olhos curiosos.
- Achas que consegues? Já tenho a roupa toda molhada. - respondi atrapalhada rindo-me baixo.
- Porque te estás a rir? - a rapariga de cabelos vermelhos estava a meu lado, a sacudir por sua vez os próprios cabelos com um olhar confuso no rosto.
- Por nada.
- Que pulseira é essa? No teu braço. - perguntou a rapariga, apontando directamente para a minha pulseira com um olho azul, com um meio sorriso no rosto.
- Foi-me oferecida...Porque vermelho? Os cabelos. - perguntei sentando-me e ficando a olhar a rapariga enquanto esta acabava de sacudir os cabelos.
- Ficava rebelde? Não sei. Sem razão acho. – respondeu a rapariga, agora com o rosto sem expressão.  enquanto falava e me deitava suaves olhares – podes parar de me fixar?
- Claro, desculpa. – desviei o olhar de imediato, sentindo-me mal pela atenção dispensada. Mas no que estaria eu a pensar, ninguém gosta de ser observado assim.
- Chamo-me Angélica já agora - e com o sorriso de volta, sentou-se ao meu lado que praguejava baixinho.
- Uh, o que? Desculpa, podias repetir?
- Chamo-me Angélica... e tu ?
- O meu nome é Samanta, olá  – respondi também sorrindo. Ela mirou-me com atenção e riu-se
- Então, Samanta, o que fazes por aqui e por que razão foste rude á pouco?
Espantei-me e fixei-a de novo
- Rude? - e soltei uma gargalhada sentida- porque dizes isso?