Eu escrevia...

28-07-2014 18:47
Eu escrevia. Muito.
Para toda a gente, para quem me quisesse ouvir, pequena.
Eu era a maré de palavras que abala mundos escondidos dos olhos de gente comum. 
Eu era a que remexia com o passado, assaltava o presente e alterava o futuro. 
Eu era alegria, vida, liberdade.
Eu era a que fazia lágrimas de oiro brotar da face personificada do coração mais frio. 
Eu era a luta dos que não me ouviam, era a força dos invenciveis.
Ah pequena! Como eu era grande ao planear sem planos o futuro das minhas toscas palavras.
Nada era meu, mas eu fazia parte de tudo.
"E agora?" perguntas tu meio a medo, tentando decifrar minha face gélida e pálida.
Agora, pequena, a chama desapareceu.
A força passou a nada, os sorrisos esmoreceram, as lágrimas secaram. O mundo esqueceu.
Como tudo o que é bom dura pouco, assim foi com a força das minhas palavras.
A sensação de vazio assombra cada linha cheia de traços dançantes.
O resquicio de vida presente nas palavras adormecidas por mim torna-se inalcançavel. 
Olhas-me com um olhar de misericordia, como se olha para um vagabundo que perdeu o sentido de vida.
Olhas-me com um olhar que se oferece a cães abandonados por ignorância.
Esse teu olhar limpido, puro e inocente, crava-me a última punhalada bem fundo.
Caiu de joelhos à tua frente, pequena, minhas lágrimas de sangue manchando-te o vestido branco quando tentas segurar-me em teus braços fracos de desespero. 
Oiço-te o grito de angústia e mágoa ao sentires-me desfalecer.
Minhas mãos apoiando no chão o que resta da minha insanidade.
Ah merda de insanidade que se nos agarra à alma e se expressa através dos nossos ossos!
Teu punhal, cravo-o mais fundo.
Sinto tuas mãos apertarem-me a face, olhando-me, tentando de algum modo penetrar o que já desapareceu.
Sinto o frio do chão tornar-se quente enquanto sussurro contra as lágrimas escorrendo em teus lábios, pequena, que a alma de artista à muito que foi sufocada pelas mãos do desprezo e do desespero. 
Respira por mim, pequena...